Entre o óxido de terra rara e o ímã existe uma etapa que quase só a China domina. Uma siderúrgica chilena decidiu aprendê-la
A Aclara e a CAP inauguraram no Chile uma planta de demonstração que transforma óxidos de neodímio e praseodímio em metal. O caso ensina por que a metalização é o elo esquecido da cadeia — e como competências de outra indústria podem destravá-lo.
- A Aclara Metals, joint venture 50/50 entre a Aclara Resources e a siderúrgica chilena CAP, inaugurou uma planta de demonstração de metais e ligas de terras raras na usina de Huachipato, em Talcahuano.
- A planta usa eletrólise em sal fundido para converter óxidos de neodímio e praseodímio em metal, com capacidade nominal de até 175 kg por dia e pureza mínima de 99,5%.
- Não há padrão industrial estabelecido para esse processo fora da China; a célula eletrolítica foi desenhada pela própria joint venture com a equipe da siderúrgica.
- A metalização é o elo entre a separação e o ímã — e um dos gargalos mais agudos da diversificação da cadeia.
A Aclara Resources e a CAP, maior grupo siderúrgico do Chile, inauguraram uma planta de demonstração para produzir metais e ligas de terras raras dentro da usina de Huachipato, em Talcahuano. A operação pertence à Aclara Metals, joint venture dividida meio a meio entre as duas empresas, e foi anunciada em outubro de 2026. A tecnologia é a eletrólise em sal fundido: os óxidos de neodímio e praseodímio são dissolvidos num banho de sais a alta temperatura e reduzidos a metal por corrente elétrica. A planta foi projetada para até 175 quilos de metal por dia, com pureza mínima de 99,5%, e vai operar em campanhas de produção para testar estabilidade. Numa segunda fase, a joint venture estuda incluir óxido de disprósio para fabricar uma liga de neodímio, praseodímio e disprósio. Como não existe padrão industrial estabelecido para a metalização de terras raras, a célula eletrolítica foi desenvolvida internamente pela Aclara Metals e pela equipe de Huachipato, e é tratada como tecnologia proprietária. Os dados da demonstração vão alimentar a engenharia de uma planta industrial planejada na Louisiana, nos Estados Unidos, e modelos digitais de otimização do processo. A unidade complementa os pilotos de concentração da Aclara no Chile e no Brasil e a sua planta de separação na Virgínia.
Quando se fala na dependência mundial da China em terras raras, a conversa costuma parar na mineração ou na separação dos elementos. A cadeia tem mais elos. Depois de separado, o neodímio sai como óxido, um pó. O ímã permanente que vai no motor de um carro elétrico ou numa turbina eólica precisa de metal. A passagem de um para o outro — a metalização — é uma etapa própria, com equipamento, química e saber-fazer específicos. A rota dominante é a eletrólise em sal fundido à base de fluoretos, por volta de 1.050 °C. Exige controle fino de oxigênio e impurezas, refratários que aguentem o banho corrosivo e operadores experientes. A China concentra cerca de 90% da separação e do processamento de metais de terras raras, e a capacidade anunciada de metais e ligas fora do país é estimada pela Agência Internacional de Energia em apenas 18 mil toneladas. Para comparar: uma única empresa chinesa, a Northern Rare Earth, orçou cerca de 45 mil toneladas de metal de neodímio e de NdPr para 2025. Por isso um país pode ter mina e planta de separação e continuar dependente — o óxido viaja para virar metal do outro lado do mundo. A parceria chilena ensina uma segunda coisa, mais sutil: de onde vem a competência que falta. Uma siderúrgica não produz terras raras, mas convive há décadas com metal líquido, fornos, eletrodos, refratários e controle de qualidade metalúrgico. A Aclara traz o minério e a química de separação; a CAP traz a cultura de operar processos de alta temperatura com segurança. É transferência de competência entre setores, não compra de tecnologia pronta — até porque, fora da China, ela não está à venda. O formato da planta também é didático. Com 175 quilos por dia, a demonstração não existe para gerar receita. Serve para treinar equipes, descobrir como a célula se comporta em campanhas longas e gerar dados reais para dimensionar a unidade industrial. Pular essa etapa num processo sem padrão estabelecido seria apostar o investimento numa extrapolação.
Diversificar a cadeia de ímãs exige cobrir todas as etapas, e a metalização é uma das mais estreitas. Para o Brasil, onde há projetos de terras raras em argila iônica avançando — inclusive pilotos de concentração da própria Aclara —, a lição é direta: extrair e separar não basta para capturar valor se o metal continuar sendo feito fora. Para engenheiros metalúrgicos, a eletrólise em sal fundido e o projeto de células são competências escassas, com demanda crescente em programas de minerais críticos nas Américas, na Europa e na Austrália.
O que aprendemos?
- A cadeia de terras raras tem quatro elos — mina, separação, metalização e ímã — e a metalização é um dos gargalos mais agudos fora da China.
- A capacidade anunciada de metais e ligas fora da China, estimada em 18 mil toneladas pela AIE, é menor que o orçamento de produção de uma única empresa chinesa.
- Competências de alta temperatura de uma siderúrgica podem ser transferidas para a metalurgia de terras raras, desde que validadas numa planta de demonstração.
Radar de Competências
- Eletrólise em sal fundido★★★★★
- Mapeamento de cadeia de suprimentos de minerais críticos★★★★★
- Projeto de planta de demonstração★★★★★
- Transferência de tecnologia entre setores★★★★★
Competências Desenvolvidas
- Eletrometalurgia
- Cadeia de valor de minerais críticos
- Escalonamento de processos
Tendência de alta
com a capacidade de metalização fora da China muito abaixo da demanda dos fabricantes de ímãs ocidentais, novos projetos de metais e ligas devem se multiplicar nos próximos anos.
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Para aprofundar este tema
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