O Canadá não deu subsídio a uma mina de minerais críticos — comprou uma fatia dela
O Canada Growth Fund investiu cerca de C$ 140 milhões no Projeto Marathon, de cobre e paládio em Ontário, via ações ordinárias e notas conversíveis — não doação nem empréstimo a fundo perdido. O aporte fechou um pacote de financiamento de C$ 1,3 bilhão e deve liberar a construção.
- O Canada Growth Fund (CGF) anunciou em 15 de setembro de 2026 um investimento de cerca de C$ 140 milhões na Generation Mining, dona do Projeto Marathon, mina de cobre e paládio no noroeste de Ontário.
- O aporte não é subsídio nem empréstimo: são cerca de C$ 90 milhões em ações ordinárias dentro de uma rodada de C$ 200 milhões, mais C$ 50 milhões em notas conversíveis de uma oferta de C$ 100 milhões — o CGF compra participação e assume risco de acionista.
- A entrada do CGF, somada a C$ 50 milhões do Canada Infrastructure Bank, fechou o pacote de financiamento de construção do projeto em cerca de C$ 1,3 bilhão.
- O Marathon já tem todas as licenças — o governo canadense o descreve como 'totalmente licenciado e pronto para escavar' — e deve produzir 42 milhões de libras de cobre e 168 mil onças de paládio por ano, por pelo menos 13 anos.
Em 15 de setembro de 2026, o Canada Growth Fund (CGF) — veículo de investimento de C$ 15 bilhões criado pelo governo federal canadense para atrair capital privado a projetos estratégicos — anunciou um aporte de aproximadamente C$ 140 milhões na Generation Mining, empresa dona do Projeto Marathon, depósito de cobre e paládio no noroeste de Ontário, perto da cidade de Marathon. O investimento tem duas pernas: cerca de C$ 90 milhões em ações ordinárias, dentro de uma rodada de equity de C$ 200 milhões, e C$ 50 milhões em notas conversíveis, dentro de uma oferta de C$ 100 milhões. O Canada Infrastructure Bank entrou com mais C$ 50 milhões. Juntas, essas peças fecharam o pacote de financiamento de construção do projeto, que soma cerca de C$ 1,3 bilhão — o valor total necessário para começar a obra. A mina, 100% da Generation Mining, já tem licença ambiental e de operação completas; faltava só o capital. Segundo o governo canadense, o projeto vai gerar mais de 800 empregos na fase de construção e acima de 400 postos diretos permanentes na operação, com produção média anual projetada de 42 milhões de libras de cobre, 168 mil onças de paládio e 38 mil onças de platina, ao longo de uma vida útil mínima de 13 anos.
A parte que costuma passar despercebida nesse tipo de notícia é a estrutura do investimento, não o valor. O CGF não deu ao Marathon uma doação, nem um empréstimo subsidiado a fundo perdido — comprou ações ordinárias e notas conversíveis, os mesmos instrumentos que um fundo de private equity usaria. Isso muda o papel do governo na equação: em vez de bancar o risco e sumir do cap table, o Canadá vira acionista relevante de uma mina de cobre e paládio, com exposição direta ao preço desses metais e ao desempenho operacional do projeto pelos próximos anos. É uma aposta, não um subsídio. Essa escolha resolve um problema específico, que muita gente confunde: achar que o gargalo dos minerais críticos é sempre a licença. O Marathon já tinha isso resolvido — está, nas palavras do próprio governo canadense, 'totalmente licenciado e pronto para escavar'. O que faltava era o último pedaço do capital de construção, justamente a fase em que bancos comerciais mais hesitam, porque o projeto ainda não gera receita e o risco de execução é alto. Ao entrar como investidor âncora — assumindo uma fatia do risco que nenhum banco quer carregar sozinho —, o CGF funcionou como sinal de credibilidade que destravou o resto do pacote de C$ 1,3 bilhão, incluindo a fatia do Canada Infrastructure Bank. O modelo não é exclusividade canadense: é a mesma lógica por trás de fundos soberanos e bancos de desenvolvimento em outros países que estão migrando de crédito subsidiado para participação acionária direta em minerais críticos, dos Estados Unidos à União Europeia. A diferença para quem acompanha o setor é que essa estrutura financeira responsabiliza o Estado pelo desempenho do ativo: se o preço do cobre cair ou o projeto atrasar, o governo perde dinheiro como qualquer outro acionista, o que também cria um incentivo público mais forte para que o projeto saia do papel dentro do prazo.
Para quem avalia risco de financiamento de projetos de mineração, o caso Marathon separa dois gargalos que costumam ser tratados como um só: obter licença e obter capital. Um projeto pode estar tecnicamente pronto para operar e ainda assim ficar anos parado esperando quem banque a última fatia da construção — e é exatamente nesse ponto que fundos soberanos de minerais críticos têm concentrado esforço, não na fase de exploração ou permitting. Para gestores e investidores, entender que capital público hoje entra como sócio, com risco e retorno reais, muda a forma de ler qualquer anúncio de 'investimento governamental' em mineração: não é gasto público, é posição de carteira.
O que aprendemos?
- Financiamento de construção e licenciamento são gargalos distintos: um projeto 'totalmente licenciado' ainda pode ficar anos parado esperando capital.
- Fundos governamentais como o Canada Growth Fund estão migrando de subsídio para posição acionária direta — ações ordinárias e notas conversíveis —, o que os expõe ao mesmo risco de mercado de qualquer investidor privado.
- Um investidor-âncora estatal cumpre função de sinalização: reduz o risco percebido por bancos privados e ajuda a fechar o resto do pacote de financiamento.
Radar de Competências
- Financiamento de projetos de mineração★★★★★
- Política de minerais críticos★★★★★
- Avaliação de risco de investimento★★★★★
Competências Desenvolvidas
- Estrutura de financiamento de projetos
- Análise de risco em mineração
- Política industrial de minerais críticos
Tendência de alta
Fundos soberanos e bancos de desenvolvimento em várias jurisdições estão adotando o modelo de investimento acionário direto para acelerar a construção de minas de minerais críticos, substituindo gradualmente subsídios tradicionais.
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