O minério de ferro australiano não servia para o aço verde. Um forno elétrico na Pilbara quer mudar isso
A Fortescue produziu o primeiro metal líquido no seu projeto piloto de Christmas Creek com um forno de fundição elétrica da Metso, rota pensada justamente para o minério de teor médio que domina a Pilbara e que a rota tradicional de redução direta não aceita bem.
- O Green Metal Project da Fortescue, em Christmas Creek, na Pilbara australiana, produziu seu primeiro metal líquido usando um forno de fundição elétrica para ferro de redução direta (DRI) fornecido pela Metso.
- A Fortescue anunciou o marco em agosto de 2026; em 28 de setembro, a Metso detalhou o papel da sua tecnologia, instalada a partir de setembro de 2025.
- A tecnologia mira minérios com mais ganga — sílica e alumina —, que até agora eram considerados pouco adequados à siderurgia por redução direta.
- O piloto ainda está em comissionamento por etapas e usa minério blendado; a própria Fortescue reconhece que ninguém resolveu o metal verde com minério da Pilbara em escala comercial.
A Fortescue produziu o primeiro metal líquido — o chamado hot metal — no Green Metal Project, uma planta piloto instalada no complexo de Christmas Creek, na região da Pilbara, no oeste da Austrália. A empresa anunciou o marco em 19 de agosto de 2026. Em 28 de setembro, a finlandesa Metso, fornecedora do forno, divulgou os detalhes da sua participação: ela respondeu pelo projeto central de fundição e pela tecnologia do forno elétrico de fundição de ferro de redução direta, cuja instalação começou em setembro de 2025. O mesmo tipo de forno é testado em paralelo no centro de pesquisa da Metso em Pori, na Finlândia, ao lado de fornos elétricos de corrente alternada e contínua. A rota combina hidrogênio verde produzido no local — a planta de Christmas Creek, comissionada em 2024, tem dois eletrolisadores de 700 kW e capacidade de cerca de 530 kg de hidrogênio por dia — com a fundição elétrica do ferro reduzido. Na fase atual, o piloto opera com minério blendado, e o comissionamento seguirá em etapas antes de qualquer decisão de ampliação. A meta original, de mais de 1.500 toneladas de metal verde por ano a partir de 2025, ficou para trás no cronograma.
Para entender por que um forno piloto importa tanto, é preciso olhar para a química do minério. A rota de aço com menos carbono que mais avança no mundo é a redução direta: o minério, em pelotas, é reduzido por gás — natural ou hidrogênio — sem chegar a fundir, gerando o ferro esponja, ou DRI. Esse DRI depois vai para um forno elétrico a arco. O problema é que o forno a arco tem pouca capacidade de separar impurezas. Toda a ganga que estava no minério — principalmente sílica e alumina — acompanha o ferro e vira escória, consumindo energia e derrubando a produtividade. Por isso, a rota DRI com forno a arco pede minério de alto teor, tipicamente acima de 67% de ferro. E a Pilbara, uma das maiores províncias de minério de ferro do planeta, produz majoritariamente minério de teor médio, com mais ganga, que funciona muito bem no alto-forno mas não se encaixa nessa exigência. É aí que entra o forno de fundição elétrica. Em vez de jogar o DRI num forno a arco, ele funde o ferro reduzido e separa o metal da escória de forma parecida com o que acontece num alto-forno — só que usando eletricidade em vez de coque. O produto é um metal líquido que pode seguir para a aciaria convencional, a mesma usada hoje pelas siderúrgicas integradas. Em outras palavras, a tecnologia tenta preservar o valor de um minério que, na transição para o aço verde, corria o risco de ser preterido por minérios de alto teor de outros países. A Metso destaca exatamente esse ponto: o forno foi pensado para minérios com mais ganga, antes considerados inadequados para a siderurgia por redução direta. Fortescue não está sozinha nessa aposta — outras grandes produtoras da Pilbara também estudam a fundição elétrica — o que mostra que o setor vê essa etapa como a peça que falta para conectar o minério australiano à descarbonização do aço. O piloto, porém, é pequeno e ainda está em comissionamento. O marco do primeiro metal prova que o equipamento opera, não que a rota é econômica em escala.
A siderurgia responde por algo entre 7% e 9% das emissões globais de CO₂, e a maior parte do minério de ferro transportado pelo mar sai justamente da Austrália. Se o minério de teor médio da Pilbara não tiver uma rota viável para o aço de baixo carbono, os grandes produtores australianos podem perder espaço para minérios de alto teor de outras regiões, como o Brasil e o Canadá, à medida que as siderúrgicas migrarem de tecnologia. A fundição elétrica é uma tentativa de evitar essa perda e, ao mesmo tempo, de capturar mais valor no país produtor: em vez de exportar só minério, exportar ferro já reduzido e fundido. Para profissionais de beneficiamento, metalurgia e planejamento de mina, o recado é que a qualidade química do minério — e não só o teor de ferro — vai pesar cada vez mais no valor do produto. Teor de sílica, alumina e fósforo, que antes eram ajustados para o alto-forno, passam a ser variáveis estratégicas na escolha da rota siderúrgica do cliente. Para quem acompanha o minério brasileiro, a lição corre no sentido inverso: a vantagem do alto teor existe hoje, mas tecnologias como a fundição elétrica podem reduzi-la ao longo da próxima década.
O que aprendemos?
- A rota de redução direta com forno elétrico a arco exige minério de alto teor porque o forno a arco remove mal a ganga — e isso exclui boa parte do minério da Pilbara.
- O forno de fundição elétrica funde o ferro reduzido e separa a escória como um alto-forno, mas sem coque, abrindo caminho para minérios com mais sílica e alumina.
- Na transição para o aço verde, a química completa do minério — sílica, alumina, fósforo — passa a definir valor tanto quanto o teor de ferro.
Radar de Competências
- Rotas de redução direta (DRI)★★★★★
- Fundição elétrica e controle de escória★★★★★
- Caracterização química de minério de ferro★★★★★
- Hidrogênio verde na indústria★★★★★
Competências Desenvolvidas
- Metalurgia do ferro
- Descarbonização da siderurgia
- Qualidade de minério
Tendência de alta
a pressão para descarbonizar o aço e o interesse dos produtores australianos em manter o valor do minério de teor médio devem multiplicar os pilotos de fundição elétrica nos próximos anos, ainda que a escala comercial dependa de custo de energia e de hidrogênio.
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