A China não aprovou a tempo — e um acordo de US$ 4 bilhões na mineração de ouro desmoronou
A compra da canadense Allied Gold pela chinesa Zijin devia fechar até 29 de julho. O prazo expirou sem aval regulatório chinês, e o que sobrou foi uma participação minoritária de US$ 295 milhões no lugar do controle total.
- A Zijin Gold ofereceu C$ 44 por ação para comprar integralmente a Allied Gold por cerca de US$ 4 bilhões, em janeiro de 2026.
- O acordo tinha aprovação de Canadá e de outras jurisdições, mas ficou parado no órgão regulador chinês até o prazo expirar em 29 de julho.
- Em vez de desistir da relação, a Zijin comprou uma fatia de 9,2% da Allied por US$ 295 milhões, num aporte que vai financiar minas na Etiópia, no Mali e na Costa do Marfim.
- As ações da Allied caíram até 18% no dia seguinte ao colapso do acordo original.
Em janeiro de 2026, a mineradora de ouro chinesa Zijin Gold concordou em comprar 100% da canadense Allied Gold por C$ 44 por ação, um cheque de aproximadamente US$ 4 bilhões. O acordo já tinha luz verde no Canadá e em outras jurisdições onde as duas empresas operam. Faltava só uma aprovação: a dos reguladores chineses, responsáveis por autorizar a saída de capital da Zijin para uma aquisição desse porte no exterior. O prazo original de fechamento, maio de 2026, foi prorrogado para 29 de julho. Nesse dia, as duas empresas reconheceram que não havia mais chance realista de destravar a aprovação em um horizonte previsível e deixaram o prazo expirar. Em vez de sair de mãos vazias, a Zijin fechou um acordo paralelo: comprar 12,8 milhões de ações recém-emitidas da Allied por C$ 32,55 cada, um investimento de US$ 295 milhões que deve fechar por volta de 10 de agosto e que dá à Zijin uma fatia de 9,2% da empresa, sem controle.
O caso expõe um ponto que executivos de fusões e aquisições internacionais sabem, mas que só fica visível quando dá errado: aprovação regulatória em país terceiro não é etapa burocrática, é risco de execução com peso equivalente ao de qualquer cláusula financeira do contrato. A Zijin e a Allied fizeram o que empresas maduras em M&A transfronteiriço fazem cada vez mais — desenharam, desde o início, um plano B contratual para o cenário em que a aprovação não viesse a tempo. Esse plano B não foi negociado às pressas depois do fracasso: a estrutura de investimento minoritário já estava, na prática, pronta para ser acionada assim que ficasse claro que o controle total não passaria pelo crivo chinês. Isso muda a forma como qualquer negociador de ativos de mineração deveria estruturar acordos que dependem de aprovação em jurisdições politicamente sensíveis — ouro, cobre, terras raras e outros minerais estratégicos entram nessa categoria com frequência crescente, porque hoje carregam também um componente de segurança nacional e disputa geopolítica que aço ou minério de ferro não carregavam há uma década. Negociar sem uma saída construída para o cenário de reprovação regulatória é apostar o acordo inteiro em uma variável que nenhuma das partes controla.
Para a Allied Gold, o desfecho não é uma derrota total: os US$ 295 milhões vão financiar a conclusão da mina de Kurmuk na Etiópia, a expansão de Sadiola no Mali e o aumento de produção na Costa do Marfim — projetos que, sem esse capital, ficariam represados. Para a Zijin, a fatia de 9,2% preserva uma porta de entrada estratégica em ativos africanos de ouro sem o risco político de uma aquisição integral. Para o mercado, o episódio reforça que consolidação na mineração de metais críticos hoje se joga em dois tabuleiros simultâneos — o financeiro e o geopolítico — e que ignorar o segundo pode custar um acordo inteiro, mesmo com todo o resto pronto.
O que aprendemos?
- Aprovação regulatória em jurisdição terceira, especialmente na China, deve ser tratada como risco de execução, não como formalidade, em qualquer M&A de mineração transfronteiriço.
- Desenhar uma estrutura alternativa (como um investimento minoritário) desde a assinatura do acordo original protege as duas partes se o cenário principal falhar.
- Ouro e outros minerais estratégicos estão cada vez mais sujeitos a escrutínio geopolítico, não só a análise antitruste tradicional.
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Tendência de alta
Com minerais críticos cada vez mais tratados como ativos de segurança nacional, negociações de M&A na mineração devem incorporar cláusulas de contingência regulatória com mais frequência, não menos.
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